FOLHA DE PARINTINS Jornalismo Livre, Presente e Atuante

nailha
01/07/2017 às 22:53 h

Encantarias na segunda noite do Caprichoso

Foto: Domingos Raposo
Foto: Domingos Raposo

O Azul e Brancohomenageou o vaqueiro, figura típica comum da região de Parintins e de vários lugares do Brasil, em noite de encantarias

João Carlos Siqueira - FOLHA DE PARINTINS 

Na segunda noite do 52º Festival Folclórico de Parintins, realizado na noite deste sábado, 01, o Boi-Bumbá Caprichoso teve a missão de abrir o espetáculo. Com o subtema “Encantaria, o imaginário caboclo”, o Touro Negro da América superou as adversidades da noite anterior e levou a nação azulada ao êxtase com toadas como “Povo Festeiro da Ilha” e “Amazônia nas Cores do Brasil” – que concorreu ao item toada, letra e música, ambas de Adriano Aguiar. Visivelmente eufórica, a galera do Caprichoso segurou sem esmorecer durante as duas horas e meia de apresentação, mesmo após ter saído das arquibancadas quando o relógio marcava três e quinze da manhã deste sábado. A animação do item dezenove do Caprichoso começou no surgimento do apresentador Edmundo Oran em um elevador hidráulico próximo à arquibancada e se estendeu até a saída do último integrante do bumbá.

 

Imaginário Caboclo Maranhense

No Maranhão o boi também é o rei da festa e símbolo de tradição. Os homens ensaiam o ritmo do batuque nos quintais, enquanto as mulheres bordam as fantasias juninas. Herança dos escravos, o boi maranhense recebe o nome de “sotaque” e vários são os sotaques existentes em todo o território do estado mais oriental da Amazônia. Na região de Cururupu, no oeste do estado, acredita-se que um rei português teria fixado residência na Ilha dos Lençóis. Os nativos afirmam que tudo que existe neste local pertence a Dom Sebastião e que nada pode ser retirado de lá sob o risco de sofrer algum mal. O rei português morreu durante batalhas contra os Mouros por territórios africanos, com apenas 24 anos. No entanto, acredita-se que durante as luas cheias o rei é visto sob a forma de um touro negro com estrela de ouro na testa. A Lenda Amazônica apresentada pelo Boi-Bumbá Caprichoso trouxe a Rainha do Folclore Brena Dianná, representando a realeza portuguesa. Na sequência, a alegoria do artista Jucelino Ribeiro trouxe o momento folclórico do bumbá, com a participação da vaqueirada, sinhazinha da fazenda, amo do boi, Gazumbá, Pai Francisco e Mãe Catirina. Um dos momentos mais aplaudidos na Exaltação Folclórica foi a transformação de Valentina Cid de princesa para a filha do dono da fazenda, com direito a troca de fantasia dentro da alegoria.

 

O caboclo, o ritmo das águas e o Imaginário Amazônico

Parintins está situada na Ilha Tupinambarana, um dos maiores arquipélagos da região. Trata-se de uma imensa várzea, com suas terras que alagam e seu jeito único de viver. Na época de cheia – com ápice entre abril e junho – o nível das águas pode subir por até 12 metros, inundando tudo o que encontrar pela frente, como terras, matas e cobrindo áreas gigantescas por vários meses, obrigando o caboclo ribeirinho a se adaptar para sobreviver e, nesta época de cheira, o gado pertencente ao caboclo é retirado das margens dos rios e transportado para pastar em terra firme. O Boi-Bumbá Caprichoso homenageou a figura do Vaqueiro da Várzea, amazônida que enfrenta as dificuldades com coragem e determinação. A Porta-Estandarte Marcela Marialva surgiu na alegoria, que apresentou um incidente na descida do item cinco, mas, ao representar a bravura do povo caboclo, Marcela levou a galera azul e branca ao delírio durante sua apresentação.

O Curupira é a referência mais popular do folclore amazônico e é conhecido por todos como o ser que tem pés ao contrário e que protege a floresta de quem quer destruí-la. A Cunhã-Poranga Marciele Albuquerque surgiu no módulo da alegoria representando a Mãe da Mata, ente protetor da floresta amazônica.

 

Transmutação de Quirópteros e Humanos

Os índios Apinajé, habitantes da região da serra do roncador, em Mato Grosso, relatam a existência de um mundo subterrâneo com odor características dos morcegos, mas com pegadas humanas no teto do labirinto de cavernas. Neste mundo habitam os homens-morcego, conhecidos como Kupe-Dyep.

Alguns caçadores ousaram se aproximar da entrada da caverna que dá acesso ao mundo subterrâneo e foram aprisionados pelos Kupe-Dyep. Como descobriram o segredo dos Homens-Morcego, os caçadores passaram por um rito de transformação, perdendo a forma humana e passando a ser um dos Kupe-Dyep. A alegoria do artista Kennedy Prata encena o ritual dos Apinajé e concorre ao item de número quatro do Caprichoso. O Pajé Neto Simões conduz a celebração de transmutação dos humanos para quirópteros, levitando em transcendência espiritual.


Por João Carlos Siqueira

Nas melhoras baladas