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nailha
18/06/2018 às 12:41 h

Crônicas da Ilha, por Kenedi Azevedo


Nos dias 28, 29 e 30 de junho da minha infância, meus pais costumavam arrumar os filhos para passearem pela frente da cidade. Saíamos do bairro da Santa Clara, passávamos pelo bairro da Francesa, até chegarmos ao Centro. Víamos, nesse percurso, as ruas todas enfeitadas, as casas pintadas com o azul e branco, renovadas (algumas de vermelho, mas poucas), as senhoras tacacazeiras arrumando suas mesas e as crianças correndo alegres sem saber por quê; tudo cheirava a festa.

Gostava de ver aquelas bandeirolas brilhantes tremulando com o vento morno do entardecer. Algumas pessoas subiam em escadas de madeira  e ainda se esticavam para pôr bem no meio dos papéis ciliados uma estrela grande, bonita. Um tapete colorido serpenteava o alto das avenidas e percorria balouçando por entre minha imaginação.

O centro já era invadido pelo tom e pelas cores que marcavam aqueles dias. Pessoas requebravam, entorpecidas pelo vapor que subia do Amazonas e das latinhas que enfeitavam o chão da cidade. Eram tantas! Navios ancorados no porto animavam os vendedores e alimentavam os peixes que passavam por ali absortos em águas mornas. Éramos nós os turistas nesses dias, nessas horas. Curiosos e tanto.

Depois de ver, ouvir e sentir o movimento da orla, íamos para o bumbódromo. Nessa época o acesso à arena era liberado. Ficávamos olhando os dois lados, até irmos para as arquibancadas; lá havia sempre o material que seria usado pela galera: bandeiras, chapéus,  velas... Quando começava a escurecer voltávamos para casa. Um turbilhão de coisas passava pela minha cabeça . Restava ouvir os fogos a ribombarem pelo céu escuro naquelas três noites estreladas e assistir na TV a festa que eu não podia presenciar, simplesmente por ser criança.

A ilha não cresceu, a cidade sim, a festa mais ainda, mas as minhas memórias continuam tremulando, tão pueris quanto foram aqueles dias.

Kenedi Azevedo - Parintinense, Mestre em Letras, Escritor e Professor da UEA

Nas melhoras baladas