FOLHA DE PARINTINS Jornalismo Livre, Presente e Atuante

nailha
07/07/2018 às 12:17 h

Artigo - Um Auto do Boi diferente, em família


Comecei a redigir mentalmente este texto assim que soube da inusitada história que o ‘reino’ do boi-bumbá presenciou. Suspeito que a história não seja inédita, até que exista há mais tempo que muitos leitores têm de vida. Pode ser uma variação sobre o tema ou algo jamais visto em Festival algum.

Bem... a história é conhecida – o Auto do Boi. Aqui, basta lembra-los seus personagens. O boi mais amado e premiado da fazenda, o seu ‘amo’, a bela sinhá, Pai Francisco, Mãe Catirina e Compadre Gazumbá.

Roteiro adaptado do bumba-meu-boi nordestino para o boi-bumbá amazônida, o Auto do Boi é a primeira história que muitos conhecem ao início de cada edição do Festival de Parintins. Escrita, falada ou documentada em vídeo, é tão tutorial que não se faz necessário recontá-la.

Voltando poucos dias da descoberta, não podia imaginar que estava à mesa de um bar nas proximidades do Bumbódromo, assistindo ao jogo da seleção brasileira na Copa do Mundo, com um ator do Auto do Boi. Obviamente despido do personagem folclórico, jamais imaginava que seria ele. Compadre Gazumbá.

Avançando dias até o Festival, no fosso de imprensa, meus competentes colegas de fotografia Domingos e Fábio registravam a história. Cobrindo o Boi Caprichoso – João Carlos cobrira o Garantido –, também contava com minha câmera para guardá-la comigo e compartilhar com os leitores neste momento. “Olha o boi, olha o boi”, diziam alguns repórteres, à medida que o boi negro se aproximara das incontáveis lentes, ao lado da sinhazinha, Pai Francisco, Mãe Catirina e Compadre Gazumbá. Todos interagindo entre si e despertando, em nossas mentes, a história do Auto do Boi. Até que algo diferente me chamou a atenção.

A teatralização do espetáculo do boi-bumbá é dividida em atos, certo? Momentos e personagens definidos por contextos concebidos pelas mentes de um núcleo de arte. Pensando assim e resgatando memórias de apresentações passadas, um dado momento via boi e sinhazinha diante dos meus olhos, num terno momento de amor, com o trio de matutos em segundo plano. A seguir, promovidos a protagonistas de outro momento, abrilhantavam o espetáculo.

O que vi nesse Auto do Boi diferente? A variação sobre o tema, algo jamais visto em Festival algum. O momento que Compadre Gazumbá e a Sinhazinha da Fazenda brincavam de boi-bumbá, num infinito particular. Era Sérgio Mendes e Valentina Cid. Pai e filha, juntos na arena do Bumbódromo, escrevendo uma nova página da história de sua tradicional família, de ancestralidade enraizada em Roque Cid, o primeiro. Após revolucionar um item com Karina, rufar tambores com Serginho e reafirmar a tradição com Valentina, Sérgio nos fez lembrar que o Auto do Boi não é apenas o conto folclórico da ressurreição de um boi, festejada, hoje, por milhares de pessoas. É uma história de família, em família.


Escrito por Roger Matos
Fotos por Domingos Raposo

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