FOLHA DE PARINTINS Jornalismo Livre, Presente e Atuante

pavulagem
08/01/2019 às 13:46 h

A Desconstrução do Garantido, por Mencius Melo


O historiador Eric Hobsbawm, diz que a tradição é uma invenção. Tomando por esse princípio, posso acreditar que o tempo, é quem confere robustez a tais invenções.

No caso do Garantido, foram necessários no mínimo oitenta anos, para cristalizar essa tradição, e pouco mais de oito meses para desconstruir o que levou décadas para se erguido. O edifício moral vermelho e branco, por enquanto cores oficiais, desmorana aos olhos de sua torcida e sob o ensurdecedor silêncio dos que ajudaram tijolo a tijolo, na construção da obra.

Da possibilidade de um novo "Amo" às toadas 2019, em tudo paira um tom azul.

Nem nas mais desastradas gestões que assumiram o `Boi da Baixa`, se viu tamanho desmonte. Em tempo algum, ser sócio do contrário era prerrogativa para ocupar postos de primeira grandeza no `Boi de Lindolfo Monte Verde`.

Lindolfo, aliás, corre o risco de ter a cadeira de número 01, a de `Amo do Boi`, na `academia de cultura popular`, que é o Garantido, ocupada, segundo fontes extra-oficiais, por um "sócio/compositor/torcedor" do contrário, futuramente. Afora o indiscutível talento do jovem como compositor, esse espaço é místico. Ele pertece ao único criador reconhecido sem polêmicas, do folclore parintinese.

De fundamental importância, o item `Amo do Boi` deveria estar protegido no Estatuto da AFBBG, para que sua dignidade não fosse maculada. Por estatuto, esse item jamais poderia ser ocupado por quem é reconhecidamente torcedor contrário.

Ser `Amo do Boi` equivale na liturgia do folclore, a ser o "Dono do Boi". Como é possível alguém na estrutura administrativa, ousar pensar em nomear um contrário para ser o novo "Dono do Garantido?" Em que pese falhas, Tony Medeiros é um torcedor histórico, cujo talento e a paixão foram postos à prova em inúmeras propostas de ida para o contrário. Tony jamais aceitou. É vermelho! Como vermelhos eram seus antecessores Lindolfo e João Batista.

Ao optar por buscar aliados nas hostes azuis, a gestão de Fábio Cardoso e Messias Albuquerque, agride o bom senso e descortina uma evidente falta de direção.

A escassez de "moral testicular" está na pusilânime falta de atitude em assumir a vergonhosa presença daquele que em 2015, ofendeu a memória de Lindolfo e projetou nossa derrota nos bastidores. O evento a época, foi registrado na internet em áudio ad aeternum. O fato, em que pese a gravidade, deve ser de conhecimento do Conselho de Ética do Garantido.

Já o conselho, ao que parece, dorme sob forte efeito de calmante, não acorda nem para olhar pela janela do Regimento Interno, a vergonha pela qual passa a AFBBG, em praça pública. 

A propósito, se aquele que nos solapou em 2015, está atuando no Garantido, quem o está pagando? O suado dinheiro vermelho e branco? Ou ele está trabalhando de graça? Improvável. É preciso um contrato para efeito de prestação de contas ou uma declaração de voluntariedade afinal, é temeroso juridicamente para o boi, ter tamanho talento sem proteção das leis... que o diga a Assessoria Jurídica e o Conselho Fiscal!

O descompasso grita quando olhamos para o que realmente deveria ser alvo de ativo jogo político. Sem testosterona, ao que parece, Fábio e Messias optam por medidas cosméticas que fariam a alegria das vendedoras da Jequiti.

Maquiar os problemas não irá resolvê-los. Muito menos trazer, de novo, os talentosos João Fernandez e Allan Rodrigues, dois grandes quadros, para a recompor, mais uma vez, a Comissão de Arte. O placar não é favorável, entraram no segundo tempo e metade do time já deveria estar na reserva. Mas, ficam bonitos e convenientes na selfie.

Jogam contra o Garantido em 2019:
1. O Regulamento do Festival.
2. A permanência do presidente da Comissão Organizadora e sua vice, ambos torcedores e sócios do contrário, que o Garantido parece fazer vista grossa já há dois anos.
3. A urgente necessidade de renovação do setor artístico, do discurso e da filosofia de trabalho.
4. A urgente renovação de itens.
5. O "traumatismo craniano" no setor pensante do boi, que hoje produz o discurso mais envelhecido do festival, que é o cansado mantra da "resistência do negro, do branco e do índio".

Esses sim, problemas graves e que deveriam ter sido resolvidos já em 2018. Ao invés disso, a diretoria resolveu fazer uma enquete para saber de "nós, o povo", o que deveria "melhorar no Garantido?". Ora façam-me o favor! Até o Manoel Doido, que perambula há decadas, pelas ruas de Parintins, sabe dizer discretamente ao presidente, o que ele, se presidente fosse, faria. 

De vanguarda do festival, passamos a coadjuvantes da cena! Enquanto um tem seu projeto de arena definido há no mínimo sete meses antes do festival, "nós, o povo" realizamos um seminário para saber o que fazer com a derrota de 2018. Como se seminário, no Garantido, fosse algo levado em consideração na projeção do boi de arena. Nos últimos quatro anos temos visto que não é.

Mimetizando o contrário e sangrando a olhos nus, a gestão Fabio Cardoso segue sem quilha, perdida entre igapós e chavascais, distante quilometros do grande rio de "paixão, ousadia e credibilidade", que prometeu em campanha. 

Resta rogarmos pela vitória em tom de oração e súplica, porque de joelhos já estamos. E se ela vier, será uma vitória de Fábio Cardoso, e não do Garantido. Esse vem perdendo faz tempo...

Mencius Melo é jornalista. Nasceu no Hospital Padre Colombo, é parintinense do povo da Baixa. Não é médico, mas, se pudesse, receitaria chá de "semancol" pra alguns na direção do Garantido.

Nas melhoras baladas